13 de set de 2015

Dízimo: Um tributo monetário para a manutenção do templo ou do clero?

ENVELOPE DIZIMO 10% I

DÍZIMO E SALÁRIOS DO CLERO: UM PESO NA CARTEIRA

Qual é o meu pagamento?  É a alegria especial que eu obtenho ao pregar as Boas Novas sem despesas para ninguém.  -Paulo de Tarso

Roubaria o homem a Deus? Contudo vocês roubam a mim. Mas vocês perguntam, 'Como te roubamos a ti?' Em dízimos e oferendas. Vocês estão debaixo de uma maldição, toda a nação, porque estão me roubando. Tragam todo o dízimo ao alforge, para que haja comida em minha casa. Prove-me nisto, disse o Senhor Todo Poderoso, e vejam se eu não abrirei as comportas do céu e derramarei tanta bênção que vocês não terão suficiente espaço para guardá-la.1[1]

Esta passagem de Malaquias, capítulo 3, parece ser o versículo favorito de muitos pastores. Especialmente quando o cofre da igreja está vazio. Se você freqüentou por algum tempo a igreja moderna, deve ter escutado esta passagem trovejando de cima do púlpito em várias ocasiões. Fizeram-me engolir isso por um sem número de vezes.

Considere algo da retórica que acompanha esse tema: “Deus ordena que vocês dêem seus dízimos fielmente. Se vocês não dizimam, estão roubando ao Deus Todo Poderoso, e estão colocando-se debaixo de uma maldição”. “Vamos repetir juntos o 'Credo do Dizimista?’ O dízimo é do Senhor. Aprendemos isso porque é verdade. Acreditamos nisso porque temos fé. Vamos dar nossos dízimos com alegria”. “Seus dízimos são oferendas necessárias para que a obra de Deus siga adiante!” (A “obra de Deus”, naturalmente, significa assalariar o cargo de pastor e pagar as contas mensalmente para manter o edifício sem dívidas).

Qual é o resultado desse tipo de pressão? O povo de Deus é obrigado a dar o dízimo de seus salários mensalmente. Quando faz isso, sente que Deus fica feliz. E pode esperar que Ele os abençoe financeiramente. Quando falha sente que foi desobediente e que uma maldição financeira pesa sobre ele.

Mas voltemos alguns passos atrás e formulemos duas perguntas penetrantes: “A Bíblia nos ensina a dizimar? Somos espiritualmente obrigados a patrocinar o pastor e sua equipe?”

A resposta a estas duas perguntas é alarmante. (Se você é um pastor, isso lhe interessa. Talvez fosse melhor você pegar agora seu remédio para o coração!).  

O Dízimo é Bíblico?  

dízimo na Bíblia? Sim, o dízimo é bíblico. Mas não é cristão. O dízimo pertence à velha Israel. Foi essencialmente um imposto de renda. No primeiro século, no NT, não há registro de cristãos dizimando.

A maioria dos cristãos não tem a menor idéia do que ensina a Bíblia no que se refere ao dízimo. Senão vejamos. A palavra “dízimo” simplesmente quer dizer a décima parte.2[2] O Senhor instituiu três classes de dízimos para os Israelitas como parte de seu sistema de impostos. A saber: Um dízimo do produto da terra para sustentar os levitas, que não tinham herança em Canaã.3[3] Um dízimo do produto da terra para patrocinar festas religiosas em Jerusalém. Se o produto pesasse muito para ser levado a Jerusalém, poderia ser convertido em dinheiro.4[4] Um dízimo do produto da terra arrecadado a cada três anos para os levitas locais, órfãos, estrangeiros e viúvas.5[5]

Este foi o dízimo bíblico. Note que Deus ordenou a Israel que desse 23,3% de suas rendas a cada ano, em oposição aos 10%.6[6] Estes dízimos consistiam do produto da terra, a saber: A semente e o fruto da terra, e o rebanho ou manada. Era o produto da terra, não dinheiro.

Pode-se traçar um claro paralelo entre o sistema do dízimo de Israel e o sistema moderno de tributação no Brasil. Israel era obrigado a sustentar seus funcionários públicos (sacerdotes), feriados (festivais), e pobres (estrangeiros, viúvas e órfãos) com seus dízimos anuais. A maioria dos modernos sistemas de tributação serve ao mesmo propósito.

Com a morte de Jesus, todos os códigos cerimoniais, governamentais e religiosos que pertenciam aos judeus foram cravados em Sua cruz e enterrados para sempre... Para nunca voltarem a condenar-nos. Por esta razão nunca vemos nenhum cristão no NT dando o dízimo. Da mesma forma que não os vemos sacrificando cabritos e touros para cobrir seus pecados!

Paulo escreveu, “Vocês estavam mortos em pecados e seus desejos pecaminosos ainda não tinham sido afastados. Então Ele deu-lhes participação na própria vida de Cristo, porque lhes perdoou todos os pecados, e apagou as acusações confirmadas que havia contra vocês, a lista dos seus mandamentos a que vocês não tinham obedecido. Tomando esta lista de pecados, Ele a destruiu, pregando-a na cruz de Cristo. Portanto, que ninguém censure vocês por aquilo que comem ou bebem, ou por não comemorarem as festas e feriados judaicos, ou as cerimônias de lua nova, ou os sábados. Estes eram preceitos apenas temporários, que terminaram quando Cristo veio. Eram apenas sombras da realidade — do próprio Cristo”.7[7]

Dizimar pertence exclusivamente a Israel sob a Lei. No aspecto financeiro vemos os santos do primeiro século dando alegremente de acordo com sua capacidade — não para obedecerem a um mandamento.8[8] A oferta na primitiva igreja era voluntária.9[9] E os que se beneficiavam disto eram os pobres, órfãos, viúvas, doentes, prisioneiros e estrangeiros.10[10]

Agora mesmo posso ouvir alguém fazer a seguinte objeção: “E quanto a Abraão? Ele viveu antes da Lei. Nós o vemos dizimar ao sumo sacerdote Melchizedek.11[11] Isto não destrói seu argumento de que o dízimo é parte da Lei de Moisés?”

Não, não destrói. Primeiramente, o dízimo de Abraão era completamente voluntário. Não obrigatório. Deus não o ordenou como havia feito com o dízimo de Israel.

Em segundo lugar, Abraão dizimou dos saques que ele havia adquirido depois de alguma batalha. Ele não dizimou de suas rendas nem de sua propriedade. O ato de dizimar de Abraão seria algo parecido com receber uma bonificação no trabalho, uma gratificação de Natal, para depois dizimar.

Em terceiro lugar, e o ponto mais importante, esta foi a única vez que Abraão dizimou em todos os seus 175 anos aqui na terra. Não há evidência de que ele voltou a repetir tal coisa novamente. Conseqüentemente, se você deseja usar Abraão como “texto de prova” para dizer que os cristãos necessitam dizimar, então você é obrigado a dizimar apenas uma vez!12[12]

Isto nos remete ao batido texto citado anteriormente em Malaquias 3. O que disse Deus ali? Primeiramente, esta passagem foi dirigida ao antigo Israel quando este estava sob a Lei Mosaica. O povo de Deus estava retendo seus dízimos e ofertas. Considere o que aconteceria se os estadunidenses recusassem pagar seus impostos sobre suas rendas. A lei americana qualifica isso como um roubo.13[13] Os culpados seriam castigados por roubar ao governo.

De igual forma, quando Israel reteve seus dízimos (impostos), Israel estava roubando a Deus — Ele instituiu o sistema do dízimo. Então o Senhor mandou que seu povo trouxesse seus dízimos ao alforge. O alforge era situado nas câmaras do Templo. Esta câmara era separada para receber os dízimos em espécie, não em dinheiro, para o sustento dos Levitas, pobres, estrangeiros e viúvas.14[14]

Note o contexto de Malaquias 3:8-10. No versículo 5 o Senhor diz que Ele julgará os que oprimem as viúvas, os desamparados e os estrangeiros. Ele diz, “Eu Me movimentarei com rapidez para castigar os que praticam bruxaria, os adúlteros, os mentirosos, os que roubam o salário de seus empregados, os que exploram as viúvas e os órfãos, enfim todos os que não Me respeitam”.

As viúvas, os órfãos e os estrangeiros eram os dignos recebedores do dízimo. Por reter os dízimos, Israel foi culpado de oprimir a estes três grupos. É aqui que está o coração de Deus em Malaquias 3:8-10: A opressão aos pobres.

Quantas vezes você ouviu pastores enfatizar este ponto, martelando teus ouvidos com a passagem de Malaquias 3? Das centenas de sermões que eu ouvi sobre dízimo, nenhuma vez escutei nem mesmo um sussurro acerca do que tratava esta passagem. Ou seja, os dízimos eram para sustentar as viúvas, os órfãos, os estrangeiros, e os Levitas, que não tinham qualquer propriedade. É isto o que a Palavra do Senhor tem como objetivo em Malaquias 3.  

A Origem do Dízimo e do Salário do Clero.  

Cipriano (200-258 d.C.) foi o primeiro escritor cristão a mencionar a prática de sustentar financeiramente o clero. Ele arrazoava que da mesma forma como os levitas foram sustentados pelo dízimo, assim também o clero cristão deveria ser sustentado pelo dízimo.15[15] Mas isso representa um pensamento equivocado. Hoje, o sistema levítico está eliminado. Somos todos sacerdotes agora. Então se um sacerdote demanda dízimo, todos os cristãos devem dizimar-se mutuamente!

O pedido de Cipriano foi bem incomum naquele tempo. Tanto que não foi apoiado nem divulgado pelo povo cristão naquele momento, mas muito tempo depois.16[16] Além de Cipriano, nenhum escritor cristão antes de Constantino jamais utilizou referências do VT para recomendar o dízimo.17[17] Foi apenas no século IV, 300 anos depois de Cristo, que alguns líderes cristãos começaram a defender o dízimo como prática cristã para sustentar o clero.18[18] Mas isto não chegou a ser comum entre os cristãos até o século VIII!19[19] Segundo um erudito, “pelos primeiros setecentos anos isso (os dízimos) quase nem foi mencionado”.20[20]

Relatar a história do dízimo cristão é um exercício fascinante. O dízimo migrou do Estado para a Igreja. Na Europa Ocidental, exigir o dízimo da produção de alguém era cobrar o aluguel da terra que lhe era dada em arrendamento. Na medida em que a cobrança do aluguel de 10% era entregue à Igreja, esta aumentava sua quantidade de terras ao longo da Europa. Isto resultou em um novo significado relacionado a esta cobrança de 10%. Chegou a ser identificado com o dízimo levítico! Por conseguinte, o dízimo cristão como instituição foi baseado em uma fusão da prática do VT com a instituição pagã.21[21]

Pelo século XVIII, o dízimo chegou a ser um requisito legal em muitas áreas da Europa Ocidental.22[22] Pelo fim do século X, a diferença do dízimo enquanto imposto de renda e mandamento moral apoiado no Antigo testamento havia desaparecido.23[23] O dízimo tornou-se obrigatório ao longo da Europa cristã.24[24] Em outras palavras, antes do século VIII, o dízimo era um ato de oferta voluntária.25[25] Mas pelo fim do século X, ele passou a ser uma exigência legal para sustentar a Igreja Estatal — exigida pelo clero e colocada em vigor pelas autoridades seculares!26[26]

Felizmente, a maioria das igrejas modernas abandonou a prática do dízimo como uma exigência legal.27[27] Mas a prática de dizimar está tão viva hoje como foi durante o tempo em que era um requisito legal. Certamente você não vai ser castigado fisicamente por não dizimar. Mas se você não for dizimista — isto se aplica à maioria das igrejas modernas — você será excluído das posições importantes do ministério. E sempre será culpado e atacado de cima do púlpito!28[28]

Quanto aos salários do clero, os ministros não receberam salários durante os primeiros três séculos. Mas quando Constantino entrou em cena ele instituiu a prática de pagar um salário fixo ao clero dos fundos eclesiásticos e das tesourarias municipais e imperiais.29[29] Assim, pois, nasceu o salário do clero, uma prática daninha que não tem precedente no NT.30[30] 

Raiz de Toda Maldade  

Se um crente deseja dizimar voluntariamente ou com base em uma convicção, não há problema. O dízimo chega a ser um problema quando é apresentado como um mandato de Deus, obrigatório para todo crente.

O dízimo obrigatório representa opressão aos pobres.31[31] Não são poucos aqueles que são empurrados para uma pobreza mais profunda porque alguém lhes disse que se não dizimarem estarão roubando a Deus.32[32] Quando se ensina o dízimo como um mandato de Deus, os cristãos que têm muita dificuldade econômica para viver, são culpados se não o cumprem e mergulham em uma pobreza maior ao cumpri-lo. Desta maneira, o dízimo esvazia o evangelho enquanto “boas novas aos pobres”.33[33] Em vez de boas notícias, o dízimo chega como um fardo. Em vez de liberdade, chega a ser opressão. Esquecemos que o dízimo original que Deus estabeleceu para Israel era para beneficiar aos pobres, não para prejudicá-los!

Por outro lado, o dízimo moderno é uma boa notícia para o rico. Para uma pessoa com altos rendimentos, 10% é uma soma ínfima. Dizimar, portanto, apazigua a consciência do rico na medida em que não exerce nenhum impacto significante sobre seu estilo de vida. Não são poucos os cristãos ricos que são levados a erroneamente pensar que estão “obedecendo a Deus” pelo fato deles colocarem um mísero 10% de suas rendas no prato da oferta.

Mas Deus tem uma perspectiva bem diferente relacionada ao ato da dádiva. Recorde a parábola das moedas da viúva: “Quando Jesus estava no templo, observava os ricos colocarem suas ofertas na caixa de ofertas. Foi quando uma viúva pobre pôs somente duas moedinhas de cobre. 'Realmente', comentou Ele, 'esta viúva pobre deu mais do que todos os outros juntos. Pois eles deram um pouco do que não precisam, porém ela, pobre como é, deu tudo o que tem’”.34[34]

Lamentavelmente, o dízimo muitas vezes é visto como uma prova definitiva de discipulado. Se você é um bom cristão você dizimará, pelo menos é assim que se pensa. Mas esta é uma falsa premissa. O dízimo não é nenhum sinal de devoção cristã. Se assim fosse, todos os cristãos do século I teriam sido condenados por falta de piedade!

A raiz persistente detrás do constante empurrão para que as pessoas dizimem na igreja moderna é o salário do clero. Muitos pastores sentem que é necessário pregar o dízimo e lembrar a congregação de sua obrigação de apoiá-lo em seus programas. E eles usam a promessa de uma bênção financeira ou o temor de uma maldição financeira para assegurar que os dízimos continuem sendo arrecadados.

Desta maneira, o dízimo moderno é o equivalente a uma loteria cristã. Pague o dízimo e Deus lhe devolverá mais dinheiro depois. Recuse dar o dízimo e Deus lhe castigará. Tais pensamentos assaltam o cerne das boas novas do evangelho.

Poder-se-ia dizer a mesma coisa quanto ao salário do clero. O qual tampouco tem qualquer mérito. De fato, o salário do clero corre totalmente em sentido oposto ao novo Pacto.35[35] Os anciãos (pastores) do primeiro século nunca receberam salários.36[36] Eles eram homens com profissões seculares.37[37] Eles contribuíam com o rebanho em vez de pegar dinheiro da congregação.38[38]

Assalariar pastores gera profissional remunerado. Isso os eleva sobre o restante do povo de Deus. Isso cria uma casta clerical que converte o corpo do Cristo vivente em um negócio. Na medida em que o pastor e seus assistentes são “pagos” para ministrar — eles tornam-se profissionais remunerados. O resto da congregação passa ou cai em um estado de dependência passiva.

Se todo cristão atendesse ao toque do chamado para ser um sacerdote funcional na casa do Senhor (e eles foram chamados para desempenhar esse chamado) a questão que surgiria imediatamente é: “Por quê estamos pagando nosso pastor!?”

Mas na presença de um sacerdócio passivo, tais perguntas nunca surgem.39[39] Mas quando ocorre o contrário, quando a igreja funciona como deve funcionar, o clero profissional torna-se desnecessário. De repente o pensamento que diz, “isto é trabalho do pastor” parece herético. Em termos simples, o clero profissional engendra a ilusão pacífica de que a Palavra de Deus é material classificado, perigoso, de difusão secreta e que apenas especialistas oficiais podem manejá-lo.40[40]

Mas isso não é tudo. O ato de pagar um salário ao pastor obriga-o a ser complacente com os homens. Torna-o escravo dos homens. O “vale refeição” do pastor está garantido na medida em que ele se faz simpático à congregação. Assim, pois, ele nunca está à vontade para expressar-se livremente sem temer perder alguns fortes dizimistas. Esta é a praga do sistema do pastor assalariado.

Um perigo adicional do sistema do pastor remunerado é que produz homens incompetentes — algo que herdamos dos pagãos gregos.41[41] Por esta razão, o homem precisa de uma tremenda coragem para sair do pastorado.

Desgraçadamente, a maioria do povo de Deus é profundamente ingênua com relação ao poder opressivo do sistema clerical. É um sistema descarado que não se cansa de triturar e magoar seus jovens.42[42] Definitivamente, Deus nunca quis que existisse um clero profissional. Não há um mandato bíblico nem qualquer justificativa para tal coisa. De fato, é impossível construir uma defesa bíblica para o pastorado.43[43]

Na maioria dos casos, pede-se ao porteiro de igreja coletar dinheiro durante o culto. Tipicamente é ele quem passa a “bandeja da coleta” entre as pessoas. Esta prática de passar a bandeja é outra invenção pós-apostólica. Isto começou no ano 1662, embora a bandeja de esmola para os pobres estivesse presente anteriormente.44[44]

O porteiro de igreja surgiu da reorganização da liturgia da Igreja da Inglaterra sob o reinado de Elisabeth I (1533-1603). Os porteiros de igreja tinham a responsabilidade de acompanhar e acomodar as pessoas nos bancos ou cadeiras, coletar ofertas e manter a estatística dos que comungavam. O predecessor do porteiro de igreja foi o “porteiro”. O porteiro era de uma ordem menor (abaixo do clero) e remonta ao século III.45[45] Os porteiros tinham a responsabilidade de dar segurança, abrir as portas da igreja, manter a ordem dentro do edifício, e da direção geral dos diáconos.46[46] Os porteiros foram substituídos pelos “guardas da igreja” na Inglaterra antes e durante o período da Reforma.47[47] Dos guardas surgiu o porteiro de igreja.  

Conclusão  

Embora o dízimo seja bíblico, não é cristão. Jesus Cristo não o afirmou. Os cristãos do século I não o observaram. E por cerca de 300 anos o povo de Deus não o praticou. Dizimar não foi uma prática aceita em grande escala entre os cristãos até o século VIII!

O ato da oferta no NT era segundo a capacidade de cada um. Os cristãos doavam para ajudar outros tanto como para apoiar obreiros apostólicos, permitindo-lhes viajar e fundar igrejas.48[48] Um dos testemunhos da Igreja Primitiva foi o de revelar o quão liberais eram os cristãos com relação aos pobres e necessitados. Foi isto que fez com que gente de fora da igreja, inclusive o filósofo Galen, presenciasse o poder gigantesco e encantador da Igreja Primitiva e dissesse: “Olhe como se amam uns aos outros”.49[49]

O dízimo é mencionado apenas quatro vezes no NT. Mas nenhuma destas quatro ocorrências se refere a cristãos.50[50] Definitivamente, o dízimo pertence ao VT onde um sistema de tributação foi estabelecido para apoiar aos pobres e onde havia um sacerdócio especial separado para ministrar ao Senhor. Com a vinda de Jesus Cristo, houve uma “mudança na lei” — o antigo acordo foi “cancelado” e “posto de lado” dando lugar a um novo.51[51]

Agora, todos somos sacerdotes — livres para funcionar na casa de Deus. A Lei, o velho sacerdócio, o dízimo, todos foram crucificados. Agora não há cortina do templo, nem imposto do templo, e não há um sacerdócio especial que se coloca entre Deus e o homem. Você, querido cristão, foi libertado da atadura do dízimo e da obrigação de apoiar o sistema do clero.        

Igreja, abarcando a massa da população do Império, desde César até o pior escravo, e vivendo no meio de todas suas instituições, recebeu em seu seio grandes depósitos de material estrangeiro de todas as partes do mundo e do mundo pagão...

Embora as antigas Grécia e Roma houvessem caído para sempre, o espírito do paganismo greco-romano não se extinguiu. Este ainda vive no coração do homem, o qual necessita, como sempre, da regeneração do Espírito Santo. O paganismo também vive em muitas práticas idólatras e superstições das igrejas grega e romana, contra as quais o espírito do cristianismo tem instintivamente protestado desde o princípio, e seguirá protestando até que todos os vestígios de idolatria grosseira e refinada sejam vencidos tanto externa como internamente, e batizados e santificados não somente com água, mas também com o Espírito e o Fogo do Evangelho.       -Philip Schaff

1[1] Malaquias 3:8-10, NIV

2[2] No Velho Testamento, a palavra hebraica para “dízimo” é maaser, que significa décima parte. No NT, a palavra grega é dekate, que também significa décima parte. A palavra não é tomada do mundo religioso, mas do mundo da matemática e finanças.

3[3] Lev. 27:30-33; Num. 18:21-31.

4[4] Deu. 14:22-27. Algumas vezes chama-se “festa do dízimo”.

5[5] Deu. 14:28-29; 26:12-13. O historiador judeu Josephus e outros pesquisadores acreditam tratar-se de um terceiro dízimo usado de um modo diferente do segundo. Stuart Murray, Beyond Tithing (Carlisle: Paternoster Press, 2000), pp. 76, 90.

6[6] 20% anualmente e 10% cada três anos igualam 23.3% por ano. Deus ordenou todos os três dízimos (Neemias. 12:44; Mal. 3:8-12; Heb. 7:5).

7[7] Col. 2:13-17, NASB; Veja também Heb. 6-10.

8[8] Isto é bem claro em 2 Cor. 8:3-12; 9:5-13. A palavra de Paulo sobre a oferta é: Dê de acordo com a prosperidade que recebeu de Deus — de acordo com sua capacidade e meios.

9[9] The Early Christians, p. 86.

10[10] Christian History, Issue 37, Vol. XII, No. 1, p. 15.

11[11] Gên. 14:17-20.

12[12] O mesmo se aplica com relação a Jacó. 2 Gênesis 28:20-22, Jacó se dispôs a dizimar ao Senhor. Mas, como no caso de Abraão, o dízimo de Jacó foi completamente voluntário. Segundo sabemos, não se tratava de uma prática contínua. Não há como provar que Jacó dizimava regularmente, pelo contrário, vinte anos se passaram antes que ele começasse a dizimar! Citando Stuart Murria, ”o dízimo parece ser algo incidental nestes relatos (de Abraão e Jacó). O autor não atribui um significado teológico a esta prática”.      

13[13] Alguns cristãos, contudo, acreditam ser perfeitamente legal recusar pagar imposto de renda, e não são poucos aqueles que neste momento estão presos por ter agido nesta convicção!

14[14] Neemias 12:44; 13:12-13; Deu. 14:28-29; 26:12.

15[15] Cyprian, Epistle 65.1; Beyond Tithing, p. 104.

16[16] Beyond Tithing, pp. 104-105; Early Christians Speak, p. 86.

17[17] Beyond Tithing, p. 112. Em alguns de seus escritos Crisóstomo recomenda dizimar para os pobres (pp. 112-117).

18[18] Ibid., p. 107. The Apostolic Constitutions (c. 380) apóia o dízimo para sustentar o clero com base no sistema levítico do Velho Testamento (pp. 113-116). Agostinho defendeu o dízimo, mas ele não o apresentou como norma. Na realidade, Agostinho sabia que seu apoio ao dízimo não representava a posição histórica da igreja. O dízimo foi praticado por alguns cristãos piedosos no século V, mas não foi de forma alguma uma prática difundida (pp. 117-121).

19[19] Edwin Hatch, The Growth of Church Institutions (Hodder and Stoughton, 1895), pp. 102-112.

20[20] Ibid., p. 102.

21[21] Beyond Tithing, p. 137.

22[22] Ibid., p.134. Carlos Magno instituiu legalmente o dízimo e tornou-o obrigatório em seu reino de 779 a 794 (p.139); The Age of Faith, p. 764.

23[23] Beyond Tithing, p. 140.

24[24] Ibid., p. 111.

25[25] Com exceção dos gauleses durante o século VI. O Sínodo de Tours em 567 tornou o dízimo obrigatório na região. O Sínodo de Macon em 585 ameaçou com excomunhão aqueles que recusassem dizimar. Para uma breve, mas detalhada discussão sobre a oferta na igreja patrística, veja Alan Kreider’s Worship and Evangelism in Pre-Christendom, Alan/Gron Liturgical Study, 1995, pp. 34-35.

26[26] Beyond Tithing, pp. 2, 140. Teólogos e legisladores desenvolveram detalhadamente do sistema de dízimo.

27[27] Notavelmente, a igreja da Inglaterra anulou o dízimo como exigência legal durante os anos trinta do século XX (Beyond Tithing, pp. 3-6).

28[28] Note que eu firmemente acredito no livre apoio financeiro à obra do Senhor. As escrituras afirmam isso e o Reino de Deus necessita desesperadamente desse apoio. O que estou atacando nesse capítulo é o dízimo enquanto lei cristã e a maneira como esse dinheiro é utilizado: para pagar salários do clero e para manutenção do edifício.

29[29] C.B. Hassell, History of the Church of God, from Creation to d.C. 1885 (Gilbert Beebe’s Sons Publishers, 1886), pp. 374392, 472; M.A. Smith, From Christ to Constantine (Downer’s Grove: InterVarsity Press, 1973), p. 123. O Montanistas do segundo século foram os primeiros a pagar seus líderes, mas esta prática não se espalhou até Constantino (From Christ to Constantine, p. 193).

30[30] Para uma resposta a essas passagens bíblicas que alguns usam para defender o salário do clero (pastor) veja, Rethinking the Wineskin, Capítulo 5.

31[31] Sem mencionar toda a complexidade do dízimo. Considere o seguinte: Deve ser dado do líquido ou do bruto? Como fica a isenção tributária ou fiscal? Murray detalha a complexidade de tentar importar o sistema bíblico do dízimo praticado pela velha Israel para nossa cultura hoje. Em seu sistema de anos, jubileu, sábados sagrados, colheita, o dízimo fazia sentido e ajudava a distribuir a riqueza da nação. Hoje, freqüentemente contribui para aumentar as injustiças (veja Beyond Tithing, Capítulo 2).

32[32] De acordo com Edwin Hatch, “Nenhuma instituição da Idade Média deu origem a tantos enganos quanto a instituição do dízimo”.

33[33] Mat. 11:5; Lucas 4:18; 7:22; 1 Cor. 1:26-29; Tiago 2:5-6.

34[34] Lucas 21:1-4, NIV.

35[35] Veja Atos 20:17-38 (note as últimas palavras de Paulo aos anciões de Éfeso — elas são bem significantes. Ele acreditava nunca mais vê-los novamente) 1 Tes. 2:9; 1 Pedro 5:1-2.

36[36] Rethinking the Wineskin, Capítulo 5. Para suporte técnico a essa afirmação, veja F.F. Bruce, The New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1986), p. 418; Simon J. Kistemacher, New Testament Commentary: Atos (Grand Rapids: Baker Book House, 1990), pp. 737, 740; Rolland Allen, Missionary Methods: St. Paul’s or Ours? (Grand Rapids: Eerdmans, 1962), p. 50; Watchman Nee, The Normal Christian Church Life (Anaheim, CA: Living Stream Ministry, 1980), pp. 62-63, 139-143; R.C.H. Lenski, Commentary on Saint Paul’s Epistles to Timothy (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1937), p. 683; R.C.H. Lenski, Commentary on Saint Paul’s Epistle to the Galatians (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1961), pp. 303-304.

37[37] O NT como um todo se refere aos anciões nesse sentido. Além disso, 1 Tim. 3:7 diz que o supervisor precisa ser bem visto na comunidade. A implicação natural disto é que ele é empregado regularmente no trabalho secular.

38[38] Atos 20:33-35.

39[39] De acordo com Elton Trueblood, “Nossa oportunidade para um grande passo está em disponibilizar o ministério às pessoas comuns da mesma maneira que nossos antepassados disponibilizaram a leitura da Bíblia ao cristão comum. Fazer isto significa, em certo sentido, inaugurar uma nova Reforma, e em outro significa a conclusão lógica da antiga Reforma na qual as implicações da posição tomada não foi nem totalmente compreendida nem lealmente seguida”.

40[40] As palavras de Jesus vêm à mente: “Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência...” (Lucas 11:52).

41[41] Os gregos desprezavam o trabalho manual. Eles falavam publicamente mediante pagamento. Os rabinos judeus aprendiam alguma profissão e não podiam aceitar dinheiro para serviços religiosos. Deste modo, o pastor moderno adotou o costume grego em vez do costume judeu que Paulo de Tarso seguiu até mesmo enquanto cristão.

42[42] Veja o Capítulo 4 sobre as influências profundamente corruptoras deste sistema.

43[43] Veja Capítulo 4.

44[44] James Gilchrist, Anglican Church Plate (A Connoisseur Monograph, 1967), pp. 98-101. O prato de oferta primitivo era chamado de “prato de esmolas”. O prato de esmolas surgiu como parte normal no culto da igreja apenas depois da Reforma (Michael Clayton, The Collector’s Dictionary of the Silver and Gold of Great Britain and North America, New York: The Word Publishing Company, p. 11). Segundo Charles Cox e Alfred Harvey (English Church Furniture, 2nd Edition, Methuen, 1908), o uso do prato de coleta, caixa de coleta, e caixa de esmola tornou-se comum no período pós-reforma. Na Era Medieval, os edifícios da igreja tinham uma caixa com uma abertura na tampa. No século XIV surgiu o prato de coleta. No século XVII, bacias de coletas começaram a ser passadas ao redor por diáconos ou dirigentes da igreja. J.G. Davies, ed. A New Dictionary of Liturgy & Worship (SCM Press, 1986), pp. 5-6; Charles Oman, English Church Plate 597-1830 (London: Oxford University Press, 1957); J. Charles Cox and Alfred Harvey, English Church Furniture (EP Publishing Limited, 1973), pp. 240-245; David C. Norrington, “Fund-Raising: The Methods Used in the Early Church Compared with Those Used in English Churches Today,” EQ 70:2 (1998), p. 130. O artigo inteiro de Norrington é valoroso. Mostra que os métodos atuais de “coleta” na igreja não têm qualquer semelhança com os praticados no tempo do NT (pp. 115-134).

45[45] “Porter, Doorkeeper,” The Catholic Encyclopedia (www.newadvent.org/cathen/12284b.htm).

46[46] Email privado do Professor John McGuckin, 9/23/2002. A palavra “porteiro” [usher] vem do anglo-saxão e refere-se a uma pessoa que guia outras a um tribunal ou igreja (Private Email from Professor Eugene A. Teselle, 9/22/2002).

47[47] English Church Furniture, p. 245.

48[48] Socorrendo outros crentes: Atos 6:1-7; 11:27-30; 24:17; Rom. 15:25-28; 1 Cor. 16:1-4; 2 Cor. 8:1-15; 9:1-12; 1 Tim. 5:3-16. Socorrendo plantadores de igrejas: Atos 15:3; Rom. 15:23-24; 1 Cor. 9:1-14; 16:5-11; 2 Cor. 1:16; Filipenses. 4:14-18; Tito 3:1314; 3 João 5-8. Aqui há uma íntima conexão entre carteira e coração. Um em cada seis versos em Mateus, Marcos e Lucas relaciona-se a dinheiro. Das 38 parábolas no NT, 12 falam de dinheiro. 

49[49] Tertuliano, Apology 39:7; Robert Wilken, The Christians as the Romans Saw Them (New Haven: University Press, 1984), pp.79-82.

50[50] Murray descreve todos os quatro exemplos em detalhes, provando que eles não são textos comprobatórios do dízimo cristão. Ele também mostra que de acordo com Jesus, o dízimo é mais ligado ao legalismo e ao farisaísmo do que a um modelo a imitar (veja Beyond Tithing, Capítulo 3).

51[51] Hebreus 7:12-18; 8:13

Cristianismo pagão - A Origem das Práticas de Nossa Igreja Moderna, Frank A. Viola - página 101 - 108



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